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| Fallen Angel LXXVIII, 2018 - Lorenzo Ars |
Estou em um velho bar londrino de uma das madrugadas londrinas mais sombrias. No bar todos estão bêbados demais para perceberem nitidamente a minha presença. Não me importo com os nomes dos lugares que visito, nem com o nome das pessoas. Sinto apenas a atmosfera, sinto apenas as palavras não-ditas em meu redor, sinto apenas as coisas inomináveis que apresentam-se em um ambiente. Passava eu à porta deste bar e uma música chamou-me a atenção, tocou-me em algo que por todos os milênios terrestres pelos quais caminhei eu tratei de em mim deixar sempre elevado. Sentado estou agora em uma mesa ao lado de bêbados e prostitutas, de perdidos e de encontrados mais do que podiam na perdição de seus caminhos. O cheiro do álcool é demasiado forte, atraindo todas as qualidades mais baixas de Espíritos, também a me rodearem. Ninguém ouve a música que ouço, todos estão bebendo e gritando, bebendo e fumando, bebendo e se suicidando em todos os seus vícios externos e internos. Eu me concentro, fecho os olhos e ouço a música…
I've got a picture of your house
And you're standing in the doorway
It's black and white and faded,
It's looking well used
I see the factory where I worked,
Silhouetted in the back
Memories are gray, but man they're really coming back
I don't have to be the king of the world
As long as I'm this little girl's hero
Heaven isn't too far
Closer to this everyday
And no matter what your friends might say
We'll find our way
How I love the way you move
and the spark in your eyes
There's a color inside the night like a blue suburban sky
When I come home late at night
And you're in bed asleep
Now I wrap my arms around you
So I can feel you breathing
I don't have to be superman
As long as you're always my biggest fan
Heaven isn't too far
Closer to this everyday
And no matter what your friends might say say
We'll find our way
Now the lights are going out,
Along the boulevard
The memories come rushing back and make it seem so hard
I didn't set out to go anywhere
And no one really cares
I don't know what to do
But I'm never losing interest in you
— E jamais vou perder...
— Comigo, tu não perde nada...Quer fazer um programa?
Uma prostituta se aproxima de mim. Não está bêbada e nem se parece com nenhuma das prostitutas presentes no bar. Seus cabelos louros ondulados, bem mais cuidados. Sua pele branca, bem mais cuidada. Seu corpo quase etéreo, etéreo mais ainda com a mesclagem ao tecido de seu vestido curto branco, provocante, sedutor. Esqueço a música. Preciso saber quem é tal criatura. Já sei quem é tal criatura.
— Não estou aqui para fazer programas.
— Você é solitário, chorando quase ao ouvir essa música do Warrant, Heaven. Saudades de alguma amada antiga sua?
— Saudades eternas.
— Ela era tão bela quanto eu, anjo?
— A Beleza Verdadeira Não Advém Das Formas Materiais, A Matéria É Apenas Um Tecido Rasgável. A Beleza Verdadeira Advém Da Veste Espiritual, Da Veste D'Alma Eterna.
— Isso é Filosofia ou Teologia, anjo? Você parece um daqueles idiotas dos filósofos que dizem que de tudo podem fazer e a tudo podem resolver. Ou um daqueles gays enrustidos que se tornam padres.
— Deixai todos em suas linhas de atuação, Filha Da Terra.
— Filha Da Terra! Olha, anjo, tu é mesmo um maluco! Essas asas são de alguma fantasia? Essa roupa do século dezenove é de algum grupo teatral? Você é gótico?
— Interpretar tudo pelas aparências é o grande erro humano, Filha Da Terra.
— Ah, tu é tímido, já saquei... Deixa eu tirar essa timidez daí…
Ela tenciona pôr as mãos dentro de minha calça, mas eu me levanto e, delicadamente, ponho as mãos dela em cima da mesa.
— Sabeis que assim não terás também o termo de vossa busca.
— Ah, tu me reconhecestes, Asin?
— Nós jamais seríamos estranhos um ao outro.
— Você ainda está atrás da tal da Lydyan?
— Eternamente.
— Você não vai reencontrá-la, eu acompanhei a vossa trajetória solitária neste mundo até hoje. Tu ainda achas que a encontrarás, mas não realizarás este objetivo, Eles lhe proibem de reencontrá-la. Nós dois, Anjos Noturnos, temos que nos esconder nas sombras deste mundo, olhe para as nossas aparências.
Ela, aproveitando que todos estão bêbados demais, assume a sua aparência de Anjo Noturno.
— Eu me escondo sob várias faces e vivo os prazeres terrestres com alegria. Tu encontrarás muitos de nós assim neste planeta, mas acho que durante todos esses cinquenta mil anos desde a morte da sua amada Lydyan tu não te interessas em encontrar-te com vossos Irmãos. Vejo que não receias ser tu mesmo perto dos seres humanos e já te vi procurando por tua Lydyan no Carnaval do Rio de Janeiro. Você se sente bem ao lado deles, que eu e nosso outros Irmãos Caídos utilizamos em nossos divertimentos mais secretos... Você os trata como irmãos, tens um afeto por essa raça fraca que rasteja neste mundo e que ainda se acha senhora de tudo na Natureza que aqui há. És um humano agora?
— Sou o que eu procuro ser e não o que não sou para ser.
— Eles, vossos Mestres, e Ele, o Criador, contra ti estão, Asin. Pare com essa busca por Lydyan e venha para junto de nossos Irmãos Caídos aqui neste planeta.
— Vou continuar a minha busca por Lydyan, Irmã Noturna.
Saio do bar e deixo-a sentada na mesa, a sorrir. Sei que esse não foi o meu primeiro reencontro com Awan As Da Er Sy Ro após cinquenta mil anos terrestres e nem será o último. Pela primeira vez aqui na Terra, eu reencontro uma dos meus Irmãos Noturnos... Tentarão me impedir de reencontrar Lydyan, eles não aceitam que eu não esteja ao lado deles...
Não me apoderarei de algum temor em mim, mesmo que todos eles tentem me impedir, reencontrarei Lydyan.
Aquela música a trouxe até mim, aquela música me deixou a ela próximo.
O Espírito dela vagou por Esferas Maiores, por Esferas Menores, em outro invólucros, levada pelos meus Mestres como um castigo por eu ter-lhes abandonado.
E eu, impossibilitado de sair deste planeta, durante milênios a aguardei retornar em Espírito por vontade própria, consciente enfim de que eu a chamava.
Lydyan retornou.
Lydyan está aqui.
Mas, meus Olhos estão para ela proibidos...
Ele e meus Mestres me impedem de reencontrá-la.
Como obliterarei as barreiras Daqueles Que Me Ensinaram A Nadar Pelos Mares Da Criação?
Como ultrapassarei A Inefabilidade Daquele Que Me Deu O Sopro?

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